Pechinchar

Pechinchar é como jogar cartas. Para quem vende e para quem compra, é preciso ter segurança sobre o que se tem em mão e sobre o que deseja do outro. Ser firme quanto ao limite do ceder. E, principalmente, ter um talento incrível para blefar sobre tudo isso.

Além de um exímio pedreiro, meu tio sempre foi um excelente trocador. Saía de casa com uma bicicleta e chegava mais tarde com uma moto. Saía com uma moto e chegava com duas. Trocava uma delas por um som profissional, uma bicicleta e ainda o dinheiro do mês. Depois, recomeçava o ciclo. E ficava puto nas raras vezes em que “levava canudo”.

Aquilo me irritava quando criança, mas hoje enxergo uma beleza que nunca havia enxergado naquele sistema de escambo. Melhor, percebo que, de alguma forma, aprendi com tudo aquilo, afinal muitas vezes a vida é pura pechincha.

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Na Revista (in)visível

A edição número 2 da revista (in)visível aborda a loucura sob diferentes aspectos e leituras. Um dos textos selecionados para a edição, lançada em abril de 2014, foi um dos capítulos do livro-reportagem “Por Trás dos Muros”, que conta a história de Manoel. A revista é uma produção luso-brasileira independente e autoriza a livre reprodução do seu conteúdo. Vale conferir!

Clique aqui para baixar a edição.

Capa

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Vamos ao que interessa

Absolutismo

Durante a semana, ouvi vários amigos comentando sobre a entrevista de um pastor no programa de Marília Gabriela. Alguns estavam indignados e outros indicavam a entrevista como um debate interessante de se ver. Não resisti à curiosidade e assisti agora. Como esperava, mais do mesmo. De um lado e de outro.

O pastor cumpria ali seu papel de se sobrepor à apresentadora com seus discursos fabricados na igreja – e dos quais jamais pode abrir mão, sob risco de perder a credibilidade entre os “fiéis” – e a apresentadora de garantir audiência para a emissora de TV.

Os pontos que seriam os mais interessantes do debate acabaram coadjuvantes em meio a uma discussão vazia sobre a homossexualidade e suas causas. Gostaria de saber mais, por exemplo, sobre o enriquecimento absurdo da empresa religiosa do pastor e sobre as consequências de tanta influência do universo religioso no Estado e na mídia, coisas que me deixam preocupadas hoje no Brasil. Tanto quanto me deixa abismada a capacidade de comunicação e marketing desses líderes religiosos, que abocanham audiências inacreditáveis mesmo entre aqueles que acreditam estarem combatendo os discursos de ódio.

Acredito que quanto mais audiência se dá às minúcias destes discursos, seja positiva ou negativa, mais poder eles ganham entre aqueles que os defendem. O que devemos discutir e criticar duramente, sem arrodeios nem argumentos apaixonados, são as consequências de uma visão absolutista para a sociedade – coisa que a humanidade conhece bem.

Em tempo: é QUASE invejável a inteligência emocional e a capacidade de manipulação destes líderes religiosos. Eu disse “quase”. Pois fico com a – talvez melhor da entrevista – frase final da Marília Gabriela: “que o meu Deus os perdoe”.

Para complementar, um texto que gostei e recomendo sobre a tal entrevista: Absolutamente.

1502 dias

Quando o Sol acorda, os pingos rolam quentes pelo rosto. É quando os cílios cerram com força, tanta força que o corpo levanta e vai para a vida. A menina reexperimenta o lado escuro da luz e novamente percebe que os espaços são insuficientes. E cai. Desta vez, os joelhos não têm mais força para ir ao chão clamar por aquele amor (ele existiu?). Vem então a lembrança daquele dia de Sol, quando uma forte chuva veio e a menina ouviu, mesmo que ninguém tenha dito: “agora é só você”. Aquela frase reduziu os sorrisos em seu rosto – dizem por aí que a menina ficou até pesada. A mesma frase parece ecoar agora, em meio a mais uma tempestade. A menina só espera pelo dia em que o Sol vai acordar e os pingos quentes não mais rolarão. Aí terá a certeza de que ela morreu. Por enquanto, ela só agoniza.

Tropa de Elite 2 e as coincidências

– Traficantes, milícias… Não existe lado bom nessa história.
– Mas talvez exista o lado menos ruim.
– Acássia, não existe lado bom.

(Um diálogo pós-telão com a sábia Ariana Maurício)

José Padilha, diretor dos dois filmes da série Tropa de Elite, disse recentemente em alguma entrevista que gostava de fazer “filme político”. E Tropa de Elite 2 é um desses filmes, perturbador desde antes da primeira cena, com aquele aviso que já conhecemos (ironia?): “Qualquer semelhança com a realidade é apenas uma coincidência. Esta é uma obra de ficção“.

Uma produção muito bem feita, sou mais uma a engrossar o coro. Belas cenas, personagens muito bem construídos, um roteiro convincente – e quem sabe mais sobre cinema do que eu pode enumerar as outras boas (ou não) características cinematográficas do filme brasileiro.

Mas nada se compara ao prazer da discussão pós-telão. Nada se compara ao prazer de ver um capitão – agora coronel – Nascimento convivendo nas entranhas do poder. Claro, é ótimo ir ao cinema e poder relaxar, ao lado de uma boa companhia, com um “Comer, Rezar e Amar”. Melhor ainda é refletir sobre um “Tropa de Elite 2”.

Por exemplo, o quase inevitável sentimento maniqueísta que insiste em querer aflorar na consciência (talvez fruto da muitas vezes triste experiência como eleitor/a no Brasil): seria o forte esquema criminoso do tráfico de drogas “menos ruim” à população que o forte esquema criminoso das milícias? Ou o inverso? Um simples argumento desbanca o questionamento medíocre: não existe lado bom.

#Fato

Às margens (mas integrada) de um sistema econômico cruel, sem água, energia elétrica, internet a preço acessível e outros serviços que deveriam estar na lista de prioridades das políticas públicas no Brasil, resta à população ficar à mercê de quem ofereça tais serviços, sejam estes bandidos uniformizados ou não. Uma pena. Tanto quanto a lamentável constatação de que, em nosso querido país sem Educação eficiente, é esse o preço de muitos mandatos políticos a cada dois anos, inclusive muitas vezes com o apoio da mídia. Isto não é mera coincidência, Padilha.

Aproveitando o gancho financeiro, paguei R$ 12 pelo ingresso no cinema*, mas foi impagável ver nossa Brasília estampando um das cenas finais do filme, ao som da narração do protagonista interpretado por Wagner Moura. Desolador? Um bocado. Mas o filme trouxe junto um tanto daquele sentimento de esperança que nos fortalece em muitos momentos.

Começando pelo fato de podermos assistir nos cinemas brasileiros um filme nacional como Tropa de Elite 2. Não, não estou achando que isso é muito. Afinal, vivemos nos orgulhando de que o país cada vez mais consolida a sua democracia e liberdade de expressão e pensamento. Mas também não devo crer que isso é insignificante. Afinal, as ameaças à liberdade de expressão e pensamento estão sempre por aí, nos rondando. Não é mesmo, coronel Nascimento?

Continuando. Também é esperançoso ver, mesmo que no telão, um deputado Fraga, eleito democraticamente, à frente de uma CPI verdadeiramente comprometida em solucionar um caso escabroso de corrupção dentro do poder público. Só posso desejar e acreditar, pelo bem da minha breve existência por estas bandas, que também isto, Padilha, não seja somente mera coincidência.

* Novo cinema Lumière, no Shopping Farol. Gostei.

😉

Sorteio no Twitter

PROMOÇÃO

Por Trás dos Muros no Twitter

Sem delongas, a promoção é simples: será sorteado um exemplar do livro-reportagem “Por Trás dos Muros” entre aqueles que ajudarem a divulgar o trabalho por meio da ferramenta RT do Twitter.

Para participar do sorteio, basta twittar a seguinte mensagem (cor verde):

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RT @falacassilda Loucura: quero olhar #PorTrasDosMuros. Acesse http://kingo.to/5k4

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O sorteio será realizado por meio do Sorteie.me, na noite da próxima sexta-feira (17), e o resultado será divulgado no blog www.falacassilda.wordpress.com e no www.twitter.com/falacassilda .

O ganhador receberá um exemplar autografado do livro-reportagem “Por Trás dos Muros”, publicado no dia 11 de agosto de 2010, pela Editora Multifoco.

Por trás dos Muros: é um livro-reportagem produzido a partir de pesquisas no Hospital Escola Portugal Ramalho – único hospital psiquiátrico completamente público de Alagoas – e convida o leitor para uma viagem inédita ao universo psiquiátrico. Por seu caráter inovador, a obra foi vencedora, em 2009, dos prêmios Expocom Nordeste e Expocom Brasil (categoria livro-reportagem), promovidos pela Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares de Comunicação, a Intercom.