O que Dona Irene aprendeu e ensinou sobre Zé Pelintra

Zé Pelintra, ilustrado por Weber Bagetti, na revista Graciliano nº 14

Zé Pelintra, ilustrado por Weber Bagetti, na revista Graciliano nº 13

Um dos lugares onde eu mais aprendo e me emociono é dentro de casa. Minha avó, Dona Irene, se delicia com a nova edição da revista Graciliano e faz festa por conhecer a real representação da entidade “Zé Pelintra”, sobre quem ela “ouvia muito falar quando era criança, em Pernambuco”.

– Eu ouvia muito sobre ele, mas muita coisa ruim. Agora descobri que é meu conterrâneo. É muito bom ler. A pessoa que não lê e não aprende, não tem valor.

Dona Irene queria ser professora, mas só teve oportunidade de estudar até a quarta série do Ensino Fundamental. Até hoje, porém, tem sempre nas mãos, sob os olhos, qualquer coisa que tenha três ou quatro letras escritas. Também adora lápis, caneta e papel limpo, onde traduz muitos pensamentos em cordel.

Zé Pelintra e outras entidades e orixás das religiões de matriz africana foram ilustradas pelo artista plástico Weber Bagetti na revista Graciliano nº 13, para a qual tive o prazer de também escrever sobre uma pesquisa da Ufal que mapeou os terreiros existentes em Maceió.

Você pode conferir as imagens e os pontos de venda da revista no Blog da Graciliano. É só clicar aqui! 

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Fênix

Estou aprendendo a ser simpática. Melhor: tentando.

Eu vejo amigos desconsiderando amigos e famílias renegando famílias.

Vejo ônibus lotados, pessoas espremidas, crianças sujas e desdentadas se espremendo entre os espremidos tentando ganhar alguma grana, seja lá para que ou para quem seja. Elas cantam, sorriem, atraem risos. Só não entendo do que exatamente riem.

Vejo trânsito caótico, barulho infernal, motores rangendo a 20 km/h e gente correndo para aproveitar a redução do IPI. Pelo menos na pista são os carros que se espremem. Não há suor corpo a corpo. De qualquer forma, melhor garantir o lugar ao sol com ar condicionado.

Observo minha conta bancária emagrecer cada vez que engorda um pouco. Não lembro de ter aplicado a ela qualquer receita de dieta rápida, mas acontece. Ainda bem que sei usar o caixa eletrônico, a senhora que vi ontem na agência mal sabia o próprio nome.

Nas escolas o “bêabá” virou expressão de um fonema só, com eco duplo: tatatá!

Nos hospitais… óbitos. Sem flores. Sem pêsames.

Mas me dizem que tenho que sorrir mais. Algo como Louis Armstrong cantou:  “I hear babies cry, I watch them grow, they’ll learn much more, than I’ll never know, and I think to myself, what a wonderful world!”.

Estou tentando. Comecei cancelando uma das minhas contas bancárias. E fui soltar pipa na praia. Sorri quando ela subiu lá bem alto. Deu pra ver nitidamente o desenho estampado no fundo verde limão: uma fênix.

(Foto de Amanda Duarte)

Feliz 2010 a todas e todos que passarem por aqui!

Para não matar a cachorrinha

Já falei várias vezes aqui sobre minha avó, Dona Cecília. Grande mulher. Adorava ouvir as histórias que me contava, eu ainda pequena, no município de Campo Alegre. Cresci um pouco e continuo adorando aquelas histórias. Uma delas sempre me tocou em especial e, por coincidência, minha avó se pôs a contá-la dias atrás.

– Lembra da história da cachorrinha, Cassilda?

– Lembro, sim, “vó”! Era a minha preferida! Mas esqueci uns pedaços, me conta de novo?

Quando falo em coincidência, quero me referir a coisas que martelam o coração da gente. Melhor: o meu. Nesse momento da minha ainda curta vida, a “história da cachorrinha” caiu tão bem que fiquei imaginando se Dona Cecília teria também o dom de enxergar meu coração. Divido com vocês esse conto, que ela diz ter ouvido um dia, em algum lugar no interior de Pernambuco, quando ainda era criança. Simples e tão terno.

Maria era uma mulher dita “vitalina”, nunca havia conhecido homem algum. Em meio à solidão, encontrou companhia em uma cadela, à qual passou a destinar grande afeto e muitos cuidados. Em retribuição, o animal lhe destinava infinita lealdade e proteção, quase ultrapassando o traço irracional característico da espécie.
Mas, como a maioria das vitalinas, Maria nunca deixara de sonhar com seu príncipe, aquele que a faria feliz para sempre. Uma vez, ela achou que ele havia aparecido. Na casa onde morava, afastada da cidade grande e inserida num cenário dos mais bucólicos, Maria ouviu uma voz, grave, bonita e sedutora, que ousou romper a tranquilidade e o silêncio noturno do lugar:
– Maria, estás em casa? Posso me aproximar?
A cadela não esperou a dona responder e latiu ostensivamente contra a voz que se aproximava da residência. Para a tristeza e amargura de Maria, a voz havia sumido e, pela primeira vez, a mulher desgostava do animal. No dia seguinte, a voz voltou a aparecer, dessa vez ao longe, dizendo o motivo pelo qual não ousava se aproximar da casa.
– Maria, Maria, mata a tua cachorrinha que já venho te visitar…
Ansiosa pela visita do homem, a mulher decidiu amarrar a cadela dentro de casa, na esperança de que aquilo fosse o suficiente para resolver o problema. Mas quando a voz tornava a surgir, os fortes latidos tornavam a afastá-la.
Maria, Maria, mata a tua cachorrinha que já venho te visitar…
Enfurecida com o animal, Maria o jogou para o quintal da casa, sem maiores cuidados. Mesmo assim, a cadela latia ao som daquela voz que insistia em se aproximar da casa da dona.
– Maria, Maria, mata a tua cachorrinha que já venho te visitar…
Sem poder esperar mais pela chegada do primeiro homem da sua vida, Maria resolveu atendê-lo. No dia seguinte, matou a cadela que tanto estimara, quase sem hesitar. Inexplicavelmente, não havia sido ainda suficiente. À noite, ao som da voz masculina, o espírito do animal parecia rondar o ambiente.
– Maria, Maria, mata a tua cachorrinha que já venho te visitar…
A mulher desenterrou o corpo do animal e o queimou, juntando as cinzas em um saco qualquer e jogando nas águas de um rio próximo. Voltou para casa e se vestiu na melhor roupa para receber o tal sonhado príncipe. Mas, ainda assim, o encontro não acontecia.
– Maria, Maria, mata a tua cachorrinha que já venho te visitar…
Inconformada e sem compreender o que ainda estaria impedindo aquele grande encontro, Maria voltou ao rio onde jogara as cinzas da cadelinha e encontrou o saco preso a um galho de árvore à margem das águas. Ansiosa, apenas soltou o pacote, que seguiu o curso fluvial até sumir ao alcance da vista.
E, finalmente, sem ter nem mais o espírito do animal por perto, o encontro aconteceu. Desprotegida, Maria abriu as portas da casa para o lobisomem que há tempos a rondava.

Cresci com essa lição de lealdade. E o coração aperta ao pensar que posso ter sacrificado alguma cachorrinha. Espero, enfim, que eu tenha apenas a amarrado no quintal e percebido isso a tempo de soltá-la.

| AJUDE!| De volta para pedir sangue AB+

Ora, ora, quem está de volta!

– Tudo jóia, Cassilda?

– Oláaaaa!!! Tudo ótimo e vocês?

– Ah, nós estávamos morreeendo de saudades!

– É mesmo? Bem… eu também. Só andei um tanto ausente de mim mesma. Mas decidi retornar.

– Algum motivo especial?

– Sim, sim. Pensei que uma postagem aqui poderia sensibilizar alguns de vocês.

– Huuumm… Podemos saber do que se trata?

– Claro! Devem! Uma amiga precisa urgente de sangue tipo AB+, um tipo raro. E descobri que doadores não são coisa fácil de se conseguir.

– Ah, mas nós podemos ajudar! Onde fazer as doações?

– As doações podem ser feitas na Santa Casa de Misercórdia de Maceió, até as 11h da próxima segunda-feira, dia 24. Doadores devem informar que precisam doar para Nilma Ferreira. Lá, eles recebem as doações pela manhã, até as 11h, e pela tarde, até as 16h. Posso contar com vocês?

– Claro que pode, Cassilda! Mais alguma recomendação?

– Sim. Nossa regulamentação para doações de sangue é tão preconceituosa quanto quem a aprovou. Avaliem as respostas que darão ao questionário pessoal que responderão, mas sejam sinceros quanto às questões referentes à saúde. No mais, é aquela coisa né.. tem que ter mais que 50 kg, não pode ter tido algumas doenças…

– Tudo bem, então. Pode nos esperar na Santa Casa!

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Gente, antecipei minha volta nesse espaço para fazer esse pedido a vocês que moram em Alagoas. Pessoas que possuem sangue tipo AB +, por favor compareçam à Santa Casa de Misericórdia de Maceió, no Centro, até a próxima segunda-feira. A amiga Nilma Ferreira precisa de doações e esta blogueira agradece.

Conformismo

Os cinco níveis de castas, por ordem decrescente de importância social, são os brâmanes, os kshatriyas (proprietários, aristocratas), os vaishyas, os shudras e os párias ou intocáveis, designação esta devido à sua indignidade para serem tocados por membros de castas superiores.

Com efeito, se as castas foram constitucionalmente abolidas, permanecem ainda arreigadas no espírito colectivo. Tanto assim que, se uma pessoa nasce na casta X, irá viver, casar e morrer nessa mesma casta.

(Pinho Cardão, para o blog http://quartarepublica.blogspot.com , sobre a estratificação social na qual os Indianos estavam (estão) agrupados de acordo com o seu nascimento.)

Presente de Ano Novo: passagem de ônibus mais cara em Maceió, R$ 2 (dois reais).

E tem prefeito que pode ser eleito governador em 2010, com ampla vantagem de votos sobre os adversários.

Um tornado? Um furacão? [2]

Quem acredita sempre alcança.

(da canção Mais uma Vez, de Renato Russo)

Depois de muita insistência do leitor Caio Barros (eu enchendo a boca pra falar leitor, mas ele é um dos amigos assíduos ^^), nada mais me resta além de vir aqui alterar um dos textos recentemente publicados.

Falo da postagem “Um tornado? Um furacão?”, cujas fotografias – de fevereiro último – teriam sido tiradas no bairro de Ponta Verde.  Caio diz reconhecer o prédio que aparece em uma das fotos e é enfático: “Isso é na Jatiúca!”.

Pois bem, Caio fez pesquisa no Google Maps e até me pôs para conversar com uma moradora do bairro, que afirmou que o tal prédio da foto ficaria no quintal da casa dela, “na Jatiúca”. Ela ainda foi um pouco mais tolerante que o amigo: “Isso é normal…todos confundem.. ‘é tudo praia’, dizem..”.

Mas diante de um “leitor” tão atento, não tenho como não ceder. As fotos foram tiradas na orla de Maceió, mais precisamente no bairro de Jatiúca.

😉

Veja as fotos!