Primeira intimidação

– O senhor não poderia evitar tanta violência,  sargento?

– Eles são os violentos. Eles mataram o nosso colega…

– Mas vocês já invadiram todos os barracos dessa rua. Impossível todo mundo ser culpado…

– Problema deles. Nada a declarar sobre o tema.

– O senhor tem mandado judicial pra invadir residência?

– Nada a declarar. Mais alguma pergunta?

– Se o bairro fosse rico, também invadiriam casas?

– Nada a declarar no momento, positivo?

Bobagem insistir com mais perguntas. Nestes tempos de ditadura, entre cada dez policiais e militares que admitem conversar conosco geralmente dez só nos dizem “nada a declarar”.

(Trecho do livro Rota 66 – a história da polícia que mata, do jornalista Caco Barcellos, 6ª edição, publicada em 1992)

A primeira intimidação a gente nunca esquece. E a minha foi no mês passado, mais precisamente no dia 22. Tentando apurar, por telefone, informações sobre um tiroteio que teria envolvido policiais e traficantes no bairro do Vergel, no início da tarde daquele dia, fui informada que a polícia havia voltado ao mesmo bairro, no fim da tarde, e que havia um novo tiroteio no local.

Um equívoco. Ou inverdade, que seja. A polícia havia voltado, sim, mas isso nada tinha a ver com um novo tiroteio, supondo-se que houve o primeiro. O delegado Nilvaldo Aleixo, do 3º Distrito Policial, teria recebido uma ameaça de morte de traficantes do bairro – que estariam se reunindo por lá – e convidou a Polícia Militar para averiguar se aquilo era mesmo verdade.

Antes de chegarmos à intimidação de fato, convém explicar tudo direitinho. A primeira visita das polícias – Civil e Militar – à rua conhecida como “Valetão”, no início da tarde, teve o objetivo de prender o suposto traficante José Jackson, o “Nem”, fugitivo do antigo Centro de Ressocialização de Menores (CRM), que acabou sendo morto, junto com o suposto comparsa Thiago de Souza, o “Deodai”, em uma suposta troca de tiros. Vale frisar que a repetição dos “supostos”, aqui, não é mero descuido. A ameaça ao delegado Aleixo teria partido de traficantes ligados ao Nem.

Por que relatar tudo isso? Para não correr o risco de esquecer de fazê-lo.

É que ao chegar na rua Valetão, para cobrir o fato, me deparei com os moradores indignados com a ação dos policiais, que reviraram de pernas pro ar pelo menos três moradias. Mais! Alguns deles estavam nervosos, chorando e gritando com os policiais. A acusação? Roubo! Na caça aos bandidos, os policiais, disse uma senhora, teriam levado R$ 137 da carteira de seu marido, um pescador de sururu. Até onde eu sei, nenhum mandado de busca foi apresentado aos moradores…

Verdade? Vamos por partes. Esse foi o cenário que encontrei quando cheguei ao local. E, claro, fui procurar ouvir os policiais, já no 3º DP, para onde se encaminharam. Subi a escadinha do pequeno prédio e encontrei as portas fechadas, só um policial militar no estreito corredor.

– Onde está o delegado? – perguntei.

O tenente me chamou com a mão, cerrou um pouco os olhos e questionou:

– De que jornal você é?

– Gazeta de Alagoas. Onde está o delegado? – repeti a pergunta, já sentindo o tom nada agradável na voz dele.

Ele não respondeu e voltou a questionar. – Você conversou com aquelas pessoas lá, ouviu as reclamações, mas não vai publicar nada não, né?

– Quando chegar à redação, eu escrevo minha matéria, tá? O delegado, onde está? – insisti.

Ele continuou: – Você sabe que tudo é uma troca, não sabe? Dependendo do que você publique, você pode não encontrar tantas informações com a gente da próxima vez.

Confesso que não acreditei no que estava ouvindo e fiquei um tanto nervosa. Afinal, é aquela história, eu estava diante da minha primeira intimidação. Mas, mesmo com o nervosismo, tomei coragem e disparei.

– Vamos fazer o seguinte? Você faz o seu bom trabalho que eu faço o meu, tá? O delegado está naquela sala? – perguntei, já me dirigindo para uma sala no fim do corredor.

Ele cerrou ainda mais os olhos e fez que sim com a cabeça. A matéria estava publicada no dia seguinte e a acusação de roubo foi veementemente rechaçada pelo comando da PM. Verdade da população? Dificilmente saberemos. Mas fato vergonhoso foi o posicionamento desse PM, que mancha o nome da corporação, tentando impedir o trabalho da imprensa.

Sabemos das dificuldades pelas quais a Polícia Militar passa não só em Alagoas, mas em todo o País. Dificuldades que vão desde treinamentos inadequados a novos praças, até falta de viaturas e munições para o policiamento nas ruas. Dificuldades que, muitas vezes, resultam em erros fatais, impossíveis de serem corrigidos. Dificuldades que matam inocentes, civis ou mesmo militares, como cita uma amiga blogueira no blog Thor.

Uma vez, uma policial conhecida me disse: “Me orgulho de ter concretizado ações complexas sem disparar um único tiro”. É de se orgulhar mesmo, mas sabemos que nem sempre é possível. Sabemos de tudo isso, mas tentar impedir o trabalho da imprensa… não dá.

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