Fênix

Estou aprendendo a ser simpática. Melhor: tentando.

Eu vejo amigos desconsiderando amigos e famílias renegando famílias.

Vejo ônibus lotados, pessoas espremidas, crianças sujas e desdentadas se espremendo entre os espremidos tentando ganhar alguma grana, seja lá para que ou para quem seja. Elas cantam, sorriem, atraem risos. Só não entendo do que exatamente riem.

Vejo trânsito caótico, barulho infernal, motores rangendo a 20 km/h e gente correndo para aproveitar a redução do IPI. Pelo menos na pista são os carros que se espremem. Não há suor corpo a corpo. De qualquer forma, melhor garantir o lugar ao sol com ar condicionado.

Observo minha conta bancária emagrecer cada vez que engorda um pouco. Não lembro de ter aplicado a ela qualquer receita de dieta rápida, mas acontece. Ainda bem que sei usar o caixa eletrônico, a senhora que vi ontem na agência mal sabia o próprio nome.

Nas escolas o “bêabá” virou expressão de um fonema só, com eco duplo: tatatá!

Nos hospitais… óbitos. Sem flores. Sem pêsames.

Mas me dizem que tenho que sorrir mais. Algo como Louis Armstrong cantou:  “I hear babies cry, I watch them grow, they’ll learn much more, than I’ll never know, and I think to myself, what a wonderful world!”.

Estou tentando. Comecei cancelando uma das minhas contas bancárias. E fui soltar pipa na praia. Sorri quando ela subiu lá bem alto. Deu pra ver nitidamente o desenho estampado no fundo verde limão: uma fênix.

(Foto de Amanda Duarte)

Feliz 2010 a todas e todos que passarem por aqui!

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3 comentários sobre “Fênix

  1. E quem foi que disse que o mundo é lindo?
    As partes feias arrancam lágrimas, mas isto deveria ser temporário. Como tudo na vida…

    Se absorver demais os rancores e tristezas, vc acaba se tornando numa pessoa triste e pesada….

    Pq eu tb vejo um dia lindo, uma brisa enorme, vejo provas de amor incondicional (e as vejo na televisão, inclusive). vejo passáros, vejo as borbletas e vejo famílias que são exemplos.

    Há uma linha tênue entre ser alienado a tudo que nos cerca, a todos os problemas, e tentar fazer deles mais um motivo para viver e ser feliz.

    Os Ombros Suportam O Mundo

    Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
    Tempo de absoluta depuração.
    Tempo em que não se diz mais: meu amor.
    Porque o amor resultou inútil.
    E os olhos não choram.
    E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
    E o coração está seco.

    mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
    És todo certeza, já não sabes sofrer.
    E nada esperas de teus amigos.
    Pouco importa venha velhice, que é a velhice?

    Teus ombros suportam o mundo
    e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
    As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
    provam apenas que a vida prossegue
    e nem todos se libertaram ainda.

    Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
    prefeririam (os delicados) morrer.

    Chegou um tempo em que não adianta morrer.
    Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
    A vida apenas, sem mistificação.

    (Carlos Drummond)

    Sorria, Acássia, que os outros sorrirão em troca. Se o seu sorriso for verdadeiro, os dos outros tb serão.

  2. as crianças espremidas entre os espremidos devem sorrir por imaginar um ou dois pães no som das moedas [ que vivem em atrito em suas pequenas mãos]… podem imaginar a viagem ao cheirar alguma substância forte, verdade, mas também podem pensar na surra que não vão levar mais tarde… não importa, elas sorriem.

    agora, sei que você tem muitos motivos para sorrir [como eu tenho, de sobra]. a começar por ter amigos que amam você. e, além disso, a possibilidade de fazer outros sorrirem [não acha isso digno de um sorriso?]. entre outras coisas, você é forte e inteligente… vai saber abrir sorrisos sinceros e fazer [seja por graça, agradecimento ou respeito] outras pessoas sorrirem. lembra do garçom? ele sorriu quando você sorriu.

    ah, você riu muito e bonito enquanto guiava sua fênix. quedas e cactus foram coisas pequenas demais se comparadas a essa alegria, não foi? pense nisso quando permitir a um gesto ou palavra qualquer acabar com uma noite.

    abração!

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