Para não matar a cachorrinha

Já falei várias vezes aqui sobre minha avó, Dona Cecília. Grande mulher. Adorava ouvir as histórias que me contava, eu ainda pequena, no município de Campo Alegre. Cresci um pouco e continuo adorando aquelas histórias. Uma delas sempre me tocou em especial e, por coincidência, minha avó se pôs a contá-la dias atrás.

– Lembra da história da cachorrinha, Cassilda?

– Lembro, sim, “vó”! Era a minha preferida! Mas esqueci uns pedaços, me conta de novo?

Quando falo em coincidência, quero me referir a coisas que martelam o coração da gente. Melhor: o meu. Nesse momento da minha ainda curta vida, a “história da cachorrinha” caiu tão bem que fiquei imaginando se Dona Cecília teria também o dom de enxergar meu coração. Divido com vocês esse conto, que ela diz ter ouvido um dia, em algum lugar no interior de Pernambuco, quando ainda era criança. Simples e tão terno.

Maria era uma mulher dita “vitalina”, nunca havia conhecido homem algum. Em meio à solidão, encontrou companhia em uma cadela, à qual passou a destinar grande afeto e muitos cuidados. Em retribuição, o animal lhe destinava infinita lealdade e proteção, quase ultrapassando o traço irracional característico da espécie.
Mas, como a maioria das vitalinas, Maria nunca deixara de sonhar com seu príncipe, aquele que a faria feliz para sempre. Uma vez, ela achou que ele havia aparecido. Na casa onde morava, afastada da cidade grande e inserida num cenário dos mais bucólicos, Maria ouviu uma voz, grave, bonita e sedutora, que ousou romper a tranquilidade e o silêncio noturno do lugar:
– Maria, estás em casa? Posso me aproximar?
A cadela não esperou a dona responder e latiu ostensivamente contra a voz que se aproximava da residência. Para a tristeza e amargura de Maria, a voz havia sumido e, pela primeira vez, a mulher desgostava do animal. No dia seguinte, a voz voltou a aparecer, dessa vez ao longe, dizendo o motivo pelo qual não ousava se aproximar da casa.
– Maria, Maria, mata a tua cachorrinha que já venho te visitar…
Ansiosa pela visita do homem, a mulher decidiu amarrar a cadela dentro de casa, na esperança de que aquilo fosse o suficiente para resolver o problema. Mas quando a voz tornava a surgir, os fortes latidos tornavam a afastá-la.
Maria, Maria, mata a tua cachorrinha que já venho te visitar…
Enfurecida com o animal, Maria o jogou para o quintal da casa, sem maiores cuidados. Mesmo assim, a cadela latia ao som daquela voz que insistia em se aproximar da casa da dona.
– Maria, Maria, mata a tua cachorrinha que já venho te visitar…
Sem poder esperar mais pela chegada do primeiro homem da sua vida, Maria resolveu atendê-lo. No dia seguinte, matou a cadela que tanto estimara, quase sem hesitar. Inexplicavelmente, não havia sido ainda suficiente. À noite, ao som da voz masculina, o espírito do animal parecia rondar o ambiente.
– Maria, Maria, mata a tua cachorrinha que já venho te visitar…
A mulher desenterrou o corpo do animal e o queimou, juntando as cinzas em um saco qualquer e jogando nas águas de um rio próximo. Voltou para casa e se vestiu na melhor roupa para receber o tal sonhado príncipe. Mas, ainda assim, o encontro não acontecia.
– Maria, Maria, mata a tua cachorrinha que já venho te visitar…
Inconformada e sem compreender o que ainda estaria impedindo aquele grande encontro, Maria voltou ao rio onde jogara as cinzas da cadelinha e encontrou o saco preso a um galho de árvore à margem das águas. Ansiosa, apenas soltou o pacote, que seguiu o curso fluvial até sumir ao alcance da vista.
E, finalmente, sem ter nem mais o espírito do animal por perto, o encontro aconteceu. Desprotegida, Maria abriu as portas da casa para o lobisomem que há tempos a rondava.

Cresci com essa lição de lealdade. E o coração aperta ao pensar que posso ter sacrificado alguma cachorrinha. Espero, enfim, que eu tenha apenas a amarrado no quintal e percebido isso a tempo de soltá-la.

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2 comentários sobre “Para não matar a cachorrinha

  1. Muito legal essa história. Posso dizer que ao menos os cachorros podem ser melhores do que muitos de nós. Ninguém sofreria uma agressão por motivos banais e no dia seguinte continuaria atrás da gente todo feliz.

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