Tragédia do vôo 447, Fernando de Noronha, a ditadura e o meu avô

Confesso: a ditadura militar brasileira me passou quase despercebida, não fossem os livros de História que estudei ao longo das séries do Ensino Fundamental. História muitas vezes deturpada pelos autores escolhidos como fontes oficiais.

Durante o Ensino Médio, cursado com orgulho em unidade federal de Ensino, o já antigo Cefet, e, principalmente, durante a universidade, também federal, os relatos de quem sentiu as conseqüências sombrias do período provocaram em mim uma leitura mais crítica sobre o assunto.

Infelizmente, até hoje é fácil encontrar quem louve o pesado regime militar. “Não havia bandidos naquela época”, dizem muitos. Em minha curta temporada no Litoral Norte de Alagoas, aliás, foram incontáveis as vezes em que ouvi o pensamento fluindo pelas bocas de policiais civis e militares.

Orgulham-se, inclusive, de terem presenciado época tão pacífica. Oh! Normalmente, claro, tal pitaco vem de gente que nunca se importou em dar pitacos, sempre conformados com a vida que lhes é imposta, não importa por quem nem de que forma. Contanto que levem a vida, de preferência com uma arma na cintura.

Pois bem. Descobri, hoje, algo que me instigou e me fez ter um pouco de orgulho da parte paterna da família. Assistindo às inúmeras suítes sobre a cunhada “tragédia do vôo 447”, da Air France, uma chamou a atenção, em especial. “Os destroços estão sendo achados a cerca de 700 km do arquipélago de Fernando de Noronha”, narrava uma telejornalista, acompanhada atentamente pelos ouvidos de Dona Cecília, minha avó.

Ao fim da reportagem, a lembrança desencadeada por três palavrinhas que pareciam ecoar na memória. “Fernando de Noronha… Fernando de Noronha… foi lá que seu avô, pai do seu pai, ficou preso por mais de um ano, na época da ditadura”.

– Como, vó?
– Foi, ele foi preso, parece que acharam que ele era comunista.
– O que mais você sabe?
– Não lembro, ele é que contava a história. Sua avó paterna sabe de tudo. Por que não aproveita para ir visitá-la?

Confesso de novo: meu avô paterno, já falecido, tornou-se, de repente, uma espécie de semi-heroi. Não pela prisão, porque eu nem sei o motivo. Mas por trazer mais para perto de mim uma parte da História tão distorcida quanto cruel. E confesso ainda mais uma vez: estou morrendo de vontade de enfiar a mochila nas costas e ir visitar minha avó paterna, que mora no interior dos interiores de Alagoas e a quem não vejo desde os meus sete anos de idade.

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3 comentários sobre “Tragédia do vôo 447, Fernando de Noronha, a ditadura e o meu avô

  1. Esse é um dos assuntos que me traz bastante curiosidade desde o Ensino Médio. Não tenho ninguém próximo que tenha participado diretamente, mas fico imaginando como seria não poder ler determinados livros, sequer comentar os milhões de problemas sociais oriundos da sociedade de classes.

    Independentemente do que algumas pessoas qye “lutaram” nesta época se transformaram, defender certos ideais num momento de pressão é muito mais difícil.

  2. Oi Anderson, mais uma vez obrigada pela visita. Quando você fala em “não poder ler determinados livros” só lembro de uma entrevista que o escritor Ferreira Gullar fez a Nise da Silveira, em 1996. Ela disse que passou anos presa porque uma camareira do hospital no qual trabalhava encontrou certo livro de conteúdo dito comunista e a denunciou. Pode? Bom, pôde, pelo menos.

  3. Oi Acássia, sempre acompanho seus textos, encontrei seu blog por acaso e lembrei de vc no CEFET-AL. Lendo esse texto deu uma vontade enorme de comentar.

    É interessante como uma conversa com nossos avós podemos descobrir tantas coisas, lembro que desde pequeno tenho uma admiração pelo meu avô, ele sempre sabe o porquê das coisas existentes ao redor do meu mundo. Uma cidade (União dos Palmares) tão cheia de história, essa esquecida pelo seu povo.

    Acho que imagino como é essa vontade de ir visitar a sua avó.

    Abraço e parabéns.

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