Odisséia ao Piauí [3] – O congestionamento

Ainda guardo uma mágoa profunda do Departamento Nacional de Infra-estrutura de Transportes, o tal do DNIT. Foi esta a única sigla que consegui ver colada a um trator que tapava um buraco de grandioso meio metro de diâmetro, em pleno dia daquele 15 de maio, na estrada que dá acesso à Recife. Lembro que meus olhos, angustiados, passearam da sigla diretamente para o relógio digital do celular, que marcava já 14h e 30 e poucos minutos.

O cara de nome estranho que dirigia o carro-lotação fez de tudo para desviar do congestionamento causado pela presença da máquina na pista. Até seguiu atrás de uma ambulância que abriu caminho entre os carros. Não conseguiu, logo o barraram. Lá se iam mais de vinte minutos numa espera impotente. Quando finalmente voltamos ao trânsito livre, o horário já estava contra nós.

Eureca! O homem me emprestou o celular e sugeriu que eu ligasse para a rodoviária e pedisse, encarecidamente, que segurassem o ônibus por mais 15 minutos, tempo que ainda levaríamos para chegar lá. Procurei nos meus papéis e encontrei o número da viação Progresso, única empresa que faria viagem da capital pernambucana até o Piauí, naquela tarde. Liguei!

– Moço, pelo amor de Deus! Segura o ônibus que vai para Teresina, que já estou chegando!
– Senhora, peço desculpas, mas o ônibus já saiu…

Congelei. Mas esperei até chegar à rodoviária para tomar alguma atitude. Faltando uns dez minutos para as 15h, desci do carro, paguei os R$ 50, como havia combinado com o motorista, e corri até os guichês de venda de passagens. Passei em todos, um por um, numa busca desesperada por alguma empresa que partisse dali a pouco para Teresina.

– Somente às 19h e 45min, senhora – dizia, enfático, o atendente da empresa Progresso. 
– Apenas às 20h, senhora – piorava a atendente da Guanabara.

O meu último “obrigada pela informação” veio imediatamente acompanhado por um aperto enorme no coração, sensação que me prendeu o ar na garganta e libertou todo o líquido preso em meus olhos. Chorei desesperadamente, piedosamente. A oportunidade de apresentar o fruto de árduo trabalho me escapava naquele momento.

Saí um pouco do espaço fechado e, de tão desnorteada, me encostei em uma cerca de ferro que, penso eu, nunca soube o que é limpeza. Minhas mãos ficaram pretas de tanta sujeira. Conto esses detalhes porque isso aumentou a intensidade da minha frustração. Peguei o celular e liguei para a única pessoa que me entenderia.

  Você não acha melhor se poupar, poupar o resto do dinheiro e voltar para casa?

Nãããããoooo!!!

Decidi que não desistiria. Desliguei o telefone e voltei aos guichês. Repeti as perguntas e ouvi repetidas respostas. Liguei para o coordenador da Expocom Nordeste, comuniquei que havia perdido o ônibus e fiquei sabendo que não poderia, em hipótese alguma, apresentar o trabalho na tarde do sábado. As apresentações estavam previamente marcadas para o turno matutino, eu já sabia. “Ontem, tudo terminou depois do previsto. Se você conseguir chegar aqui na universidade até as 13h, você consegue apresentar”, me disse o professor Ailton Cerqueira.

O ônibus que sairia de Recife às 20h da sexta-feira chegaria em Teresina às 13h do sábado, segundo as previsões. Comprei a passagem e esperei longas cinco horas para embarcar…

[continua]

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