O capitalismo existe mesmo?

Eita, que a pós-modernidade deixou a hipocrisia multimidiática.

(da estudante de Jornalismo Sálua Oliveira, PUC/SP, em seu blog ‘Um amor de mau humor’)

Brincando com as luzes do lugarFalando em pós-modernidade e hipocrisia, lembrei-me de um episódio que ocorreu há menos de um mês, na primeira quinzena de outubro passado. Não que uma coisa tenha a ver com a outra, longe de mim imaginar isso, me digam vocês. Aproveitem e tentem me responder a pergunta do título aí de cima. Desde esse fatídico dia, que será relatado a seguir, essa dúvida desumana me persegue.

Era uma noite de sexta-feira – muito agradável, por sinal – e esta estudante que vos fala fazia um trabalhinho extra, além estágio, para ganhar uns poucos trocados a mais no fim do mês. O local de trabalho era uma das mais belas paisagens do Estado, litoral norte de Maceió, mas, apesar da beleza, um tanto afastado do movimento urbano e, principalmente, do meu lar doce lar.

Sem carro, dependia de uma carona muito simpática para voltar para casa – não minto, nada tenho a dizer contra a carona. Até aí, por volta já de meia-noite, eu não tinha do que reclamar, embora ainda fosse continuar o trabalho madrugada adentro e acordar às cinco da manhã para cumprir outra tarefa – tudo incluso em meus modestos honorários.

Foi quando aconteceu. Minha carona, que estava acompanhada, resolveu ir comer uma pizza àquela hora da madrugada e me perguntou, já entrando no recinto gastronômico, se havia algum problema naquilo. Pensei: claro que sim, eu só vou ter que virar a noite trabalhando. Respondi: Não, principalmente sendo convidada (eu não tinha um real no bolso).

No lugar, nos esperava um distinto jovem, de seus 20 e tantos anos, loiro – o detalhe é importante porque ele baixou o tom de voz a quase um cochicho quando precisou pronunciar a palavra ‘negro’ durante nossa conversa – dono de uma conhecida loja de móveis para escritórios em Maceió.

Em algum momento da conversa, o assunto chegou a “problemas trabalhistas”. Mais precisamente, problemas enfrentados pela empresa dele na Justiça, por causa de processos de antigos funcionários. Depois de observar atentamente as toscas opiniões do rapaz, sobre o ‘absurdo’ que era a existência de leis que protegem o trabalhador no Brasil, houve um momento em que não consegui me conter.

O diálogo a seguir ocorreu naquela madrugada, em uma renomada pizzaria alagoana, entre o jovem descrito acima e esta blogueira:

Ele: – Vocês sabem por que a China dá certo? Por que lá não existem Leis Trabalhistas.

Eu: – Não acredito que estou ouvindo isso. Você sabe que se as poucas leis trabalhistas fossem cumpridas no país, não haveria dinheiro suficiente para pagar aos milhares de escravos que trabalham por lá, não é?

Ele: – Que é isso! Eu só acho, por exemplo, que não há necessidade de se pagar décimo-terceiro aqui no Brasil.

Eu: – Quanto seus empregados recebem por mês?

Ele: – O salário que o Governo acha justo, quatrocentos e quinze reais.

Eu: – E quantas horas eles trabalham por dia?

Ele: – O normal: oito.

Eu: – E você acha mesmo que esse salário é justo e digno para pais de família que passam oito horas por dia trabalhando pra você? E você ainda acha que ele não merece ganhar um reles salário extra no fim do ano? Me poupe.

Ele desconversou e eu calei a minha boca para não ter que ser obrigada a pagar pela fatia de pizza que acabara de engolir e que já me dava má digestão. Cheguei em casa às duas da madrugada, fui deixada na esquina de casa – porque a rua está em obras e bloqueada para carros -, virei a noite trabalhando, saí de casa às 6h e, às quatro da tarde do sábado, já exausta, não aguentei até o fim do expediente e voltei para casa.

Meu então “superior” não gostou da minha saída precoce e me criticou duramente, chegando a me questionar: “Tá achando que só porque ficou comigo quase 24h seguidas tá trabalhando é?”. Nem preciso dizer que abandonei prazerosamente o cargo, né? Pena que debaixo de uma discussão até feia, mas foi o jeito. Há quem diga que minha carreira está mais valorizada agora. Não sei. Só sei que a dúvida persiste: o capitalismo existe mesmo?

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Veja também a nova coluna do blog: Putz!

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2 comentários sobre “O capitalismo existe mesmo?

  1. Yes, that is! Look around dear…u’re already a employee, wondering for a leader position, where u can earn more money and get away from ur boss as soon as possible…
    Life…like it is now!

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