Educação ainda não alcança os sonhos

1 01UTC maio 01UTC 2011 at 1:45 13 comentários

– Tu é doutora?

Uns cinco minutos antes da pergunta, a jornalista havia dobrado a esquina à esquerda, rumo a uma ruazinha sem muita presença humana e onde barulheira da festa pública parecia menor. Um pouco de silêncio era essencial para atender ao telefonema originado da capital.

Enquanto gesticulava ao passar informações à interlocutora – uma colega da imprensa atrás de informações do setor público – percebeu o menino franzino parado bem à sua frente. Assim, sem receio de parecer impertinente, ele parou para ver e ouvir a conversa. E, sem cerimônia alguma, olhava fixamente para o rosto da jornalista.

Ambos estavam separados por, no máximo, uns 40 centímetros. E de nada adiantava um passo para trás ou para a frente ou uma volta de 360°. O menino continuava ali, determinado. Pela aparência física, devia ter uns sete ou oito anos. Pela impertinência – sim – no máximo uns três, como aqueles pequenos sem a menor consciência dos atos praticados.

– Oi? – finda a ligação telefônica, a jornalista indagou, esperando uma resposta à altura da inconveniência.

Ao contrário, como uma alienação momentânea a impedira de imaginar, recebeu a resposta de uma criança. A resposta que era pergunta:

– Tu é doutora?

Fiquei sem palavras. Na calçada da ruazinha tranquila, abaixei-me à altura do menino e retruquei:

– Como?

– Tu é doutora? – repetiu o garoto, balançando a cabeça como perguntando se eu era surda.

Estávamos no pequeno município alagoano de Carneiros, na última sexta-feira (29), onde a Prefeitura Municipal realizava festa anual em homenagem aos trabalhadores, com direito a praticamente tudo que uma boa festa do interior nordestino ainda precisa reservar se pretende ser mesmo boa: barraca de tiro ao alvo, quebra-potes, subida no pau de sebo, e até corrida de jegues, competição pra lá de acirrada no local.

Carneiros é um município com 8.290 habitantes, de acordo com o Censo Demográfico do IBGE de 2010. Há cerca de trinta anos a população estava acostumada a ter água de 15 em 15 dias nas torneiras de casa, situação melhorada agora com a duplicação da adutora da região. E eu estava lá a trabalho, como assessora de Comunicação da Secretaria de Estado da Infraestrutura, justamente para acompanhar a inauguração, também naquele dia, da obra realizada pelo Governo Estadual.

O menino me desconsertou. Seu primeiro nome é Bruno e a idade, como o corpo franzino não denuncia, é 10 anos. Os olhos claros, talvez verdes, se misturam com os traços e a cor negra, formando um lindo rosto. No corpo, camisa, bermuda e sandálias desgastadas.

Já de cócoras na calçada, tentei entender a insistente pergunta:

– Por que você acha que sou doutora?

– Sei lá, tem cara de doutora.

Rápida e discretamente, olhei-me de cima abaixo. Camisa xadrez de mangas longas dobrada acima dos cotovelos, calça jeans preta, tênis baixo preto e uma pequena mochila preta nas costas, contendo tudo o que eu precisaria para uma viagem de quinze horas de duração, entre ida e volta à capital Maceió, passando por dois municípios do Sertão e do Agreste de Alagoas.

Ou seja – dispensadas as discussões sobre moda-trabalho – absolutamente nada que me elevasse à condição de “doutora” suposta pelo garoto.

– Você conhece alguma doutora?

– Conheço.

– Quem é ela?

– A Raquel.

– E a Raquel parece comigo?

– Parece. Tu é doutora também?

– Não sou não.

Como jornalista com aguçado espírito felino que sou, fiquei curiosa para saber mais sobre Bruno. Menino falador, contou-me que morava numa rua “seguindo ali reto” e que tinha “um bocado” de irmãs e irmãos, não soube ou não quis dizer a quantidade exata. Disse morar com a mãe, dona de casa e criadora de animais, e que o pai “morreu faz tempo”. Tive vontade de conhecer a casa, mas “ali reto” era longe o suficiente para impedir a conciliação entre a visita surpresa à família de Bruno e o trabalho que me levara a Carneiros naquele dia.

Mas o que mais chama a atenção nas falas de Bruno são seus sonhos de menino.

– Você estuda, Bruno?

– Estudo, faço terceira série.

– Você gosta de estudar?

Pensou um pouco.

– Gosto, é bom.

– E o que você gosta mais de estudar?

– Ah, eu gosto mais de Matemática.

– E, você, quer ser doutor quando crescer?

– Eu não. Quero ser policial ou vaqueiro. Mas quero mais ser vaqueiro.

– Ah, é? E o que faz um bom vaqueiro?

– Como assim?

– Você quer ser vaqueiro por quê?

– Ah, pra montar jegue e cuidar dos animais.

– E tem algum vaqueiro que você gosta mais por aqui?

– Tem, o Nego Dão.

– E a escola?

– É boa.

No tempo em que permaneci em Carneiros, Bruno ia de um lado a outro me acompanhando, ora falando, ora fazendo perguntas. Ele falava da vontade de “ser logo grande” para montar cavalos e paquerar as meninas. E contava histórias que pareciam ser frutos da imaginação, como a viagem feita pilotando uma grande motocicleta até o município vizinho de São José da Tapera. A Maceió, disse ter ido apenas uma vez, visitar uma tia “que trabalha lá”.

Mas nosso primeiro contato ficou em minha memória. Imaginei como seria o dia-a-dia escolar dele e dos amigos, quantos vaqueiros haviam no município e quantos meninos da mesma idade tinham o mesmo sonho de ser vaqueiro, deixando a Matemática, a Língua Portuguesa, as Ciências em segundo ou em nenhum plano. E saí de Carneiros com imensa admiração pelo vaqueiro Nego Dão, que ao contrário da Escola, conseguiu ser eficaz o suficiente para alcançar e conquistar os sonhos do menino Bruno.

* Bruno permitiu ser fotografado, mas preferi não exibir suas imagens aqui. Espero que minhas descrições façam jus à beleza e à inquietude características.

** Texto revisado por Larissa Lima.

;)

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Seu Gógli

13 Comentários Add your own

  • 1. Larissa Lima  |  1 01UTC maio 01UTC 2011 às 2:03

    Sim, suas descrições fizeram juz a beleza do momento.
    A escolha das palavras e a construção que se fez com elas é um bálsamo para qualquer leitor. Um conjunto harmonioso como um álbum de mil imagens. Parabéns! Jornalismo literário tem ótimo exemplar com o você.

  • 2. acassia  |  1 01UTC maio 01UTC 2011 às 2:08

    Obrigada pelas palavras, Larissa. Você sabe que tem a minha admiração profissional também. Obrigada também pela revisão. Grande abraço!

  • 3. Vitória Alcântara  |  1 01UTC maio 01UTC 2011 às 2:22

    Ou muito me engano ou conheço o futuro vaqueiro Bruno. Passei uma tarde de domingo ouvindo as histórias dele e de uma reca de menino numa serra lá de Carneiros. Uma aula de humanidade!
    Texto lindo, Deliê.
    bjs

  • 4. acassia  |  1 01UTC maio 01UTC 2011 às 2:27

    Eu diria “que coincidência!”, mas Bruno é bom mesmo de papo. Obrigada pela visita e pelas palavras, Vitória!

  • 5. Kassia  |  1 01UTC maio 01UTC 2011 às 14:12

    Precisa da foto do Bruno não! Vc escreveu mt bem sobre ele e o resto deixa para a nossa imaginação…Fiquei curiosa com essa tal de Raquel, acho que vc tb, né?

    Muito bom Acássia!

    bjos

  • 6. Larissa Fontes  |  1 01UTC maio 01UTC 2011 às 14:22

    A minha curiosidade de fotógrafa pede pra ver a foto. Mas a sensibilidade de leitora me diz que nem é preciso, que eu já o conheço.

    Coisa boa esses encontros, né? Vinícius diria que “a vida é a arte dos encontros, embora haja tanto desencontro pela vida” e é verdade. Eu acho que a vida dá de presente pra gente esses encontros. É bom ler quem tem a oportunidade de aproveitá-los e ainda contá-los assim, com tanta sensibilidade.

    Adorei teu texto, parabéns! :*

  • 7. acassia  |  1 01UTC maio 01UTC 2011 às 15:19

    Ei, Larissa! Obrigada por ter aceitado o convite pra me visitar aqui. Gosto e admiro sua sensibilidade humana e profissional, já te disse isso. Qualquer dia desses te convido para fazermos um trabalho juntas. E, sim, esses encontros acontecem diariamente e nós desperdiçamos a maioria deles, infelizmente.
    Kassiaaa! Também agradeço pela visita e pela leitura. Sua opinião é sempre importante. Fiquei curiosa para saber quem era Raquel, imaginei que fosse alguma médica ou advogada do município. Pena que o tempo era realmente curto pra confirmar.
    Beijos às duas!

  • 8. Paulinha  |  1 01UTC maio 01UTC 2011 às 20:10

    Texto belo, Acássia! Gostei muito de conhecer o menino Bruno e de viajar para Carneiros por meio das suas palavras. Não deixe de nos presentear com a forma bonita que você vê o mundo! Um beijo

  • 9. Links Alagoanos #6 | Blog do Marques  |  2 02UTC maio 02UTC 2011 às 1:51

    [...] Educação ainda não alcança os sonhos [...]

  • 10. Ben-Hur  |  2 02UTC maio 02UTC 2011 às 23:31

    Engraçado. Eu acho que eu também logo me interessaria pela educação do menino, se ele ia à escola e se gostava. Antes de você perguntar, eu já estava pensando nisso.

    Essas pequenas curiosidades infantis rendem boas memórias. E criança não tem vergonha em perguntar, em dizer o que pensa… Acho que isso é a coisa mais atraente nelas: a curiosidade e a verdade.

    Adorei o texto!

  • 11. Bruno Monteiro  |  20 20UTC maio 20UTC 2011 às 23:31

    Não sou o Bruno do texto e nem quero ser vaqueiro, mas concordo com o garoto: Você tem cara de doutora.
    Ótimo texto Acássia.
    Deu para sentir o espírito simples do jovem alagoano

  • 12. Cinthia  |  24 24UTC maio 24UTC 2011 às 21:52

    Parabéns pelo texto! Que pena, que desperdiçamos esses encontros…e que bom que vc soube aproveitar tão bem e compartilhar!
    Abraço!

  • 13. Mário Júnior  |  13 13UTC junho 13UTC 2011 às 9:54

    Que engraçado. Eu até entendo a inquietude dele, por te achar parecida com a tal da Raquel e pensar que você é doutora. Você bem paciente na situação também. Eu sou tão chato que não teria respondido nem a primeira pergunta. :p

    E eu terminei sem saber o que faz um vaqueiro. Não conheço o nego Dão… espero que esse Bruno tenha melhor sorte que a de vaqueiro ou policial. Que a escola e os anos vindouros ampliem as ambições dele!

    Boas, Acássia!

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Acássia Deliê

"Acorda Cassilda! Levanta pra comer, Cassilda! Não estou ouvindo, fala Cassilda! Ai, Cassilda, você não tem medo de me matar do coração?" Cassilda sou eu, pelas palavras da minha avó. Meu lazer preferido é chegar em casa em surdina e dar-lhe o maior susto, seguido de gargalhadas e abraços. Acássia Deliê é jornalista, formada pela Universidade Federal de Alagoas e há tempos vinha pensando em criar um blog. Cá estamos...

 

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