Archive for 1 de maio de 2011

Educação ainda não alcança os sonhos

– Tu é doutora?

Uns cinco minutos antes da pergunta, a jornalista havia dobrado a esquina à esquerda, rumo a uma ruazinha sem muita presença humana e onde barulheira da festa pública parecia menor. Um pouco de silêncio era essencial para atender ao telefonema originado da capital.

Enquanto gesticulava ao passar informações à interlocutora – uma colega da imprensa atrás de informações do setor público – percebeu o menino franzino parado bem à sua frente. Assim, sem receio de parecer impertinente, ele parou para ver e ouvir a conversa. E, sem cerimônia alguma, olhava fixamente para o rosto da jornalista.

Ambos estavam separados por, no máximo, uns 40 centímetros. E de nada adiantava um passo para trás ou para a frente ou uma volta de 360°. O menino continuava ali, determinado. Pela aparência física, devia ter uns sete ou oito anos. Pela impertinência – sim – no máximo uns três, como aqueles pequenos sem a menor consciência dos atos praticados.

– Oi? – finda a ligação telefônica, a jornalista indagou, esperando uma resposta à altura da inconveniência.

Ao contrário, como uma alienação momentânea a impedira de imaginar, recebeu a resposta de uma criança. A resposta que era pergunta:

– Tu é doutora?

Fiquei sem palavras. Na calçada da ruazinha tranquila, abaixei-me à altura do menino e retruquei:

– Como?

– Tu é doutora? – repetiu o garoto, balançando a cabeça como perguntando se eu era surda.

Estávamos no pequeno município alagoano de Carneiros, na última sexta-feira (29), onde a Prefeitura Municipal realizava festa anual em homenagem aos trabalhadores, com direito a praticamente tudo que uma boa festa do interior nordestino ainda precisa reservar se pretende ser mesmo boa: barraca de tiro ao alvo, quebra-potes, subida no pau de sebo, e até corrida de jegues, competição pra lá de acirrada no local.

Carneiros é um município com 8.290 habitantes, de acordo com o Censo Demográfico do IBGE de 2010. Há cerca de trinta anos a população estava acostumada a ter água de 15 em 15 dias nas torneiras de casa, situação melhorada agora com a duplicação da adutora da região. E eu estava lá a trabalho, como assessora de Comunicação da Secretaria de Estado da Infraestrutura, justamente para acompanhar a inauguração, também naquele dia, da obra realizada pelo Governo Estadual.

O menino me desconsertou. Seu primeiro nome é Bruno e a idade, como o corpo franzino não denuncia, é 10 anos. Os olhos claros, talvez verdes, se misturam com os traços e a cor negra, formando um lindo rosto. No corpo, camisa, bermuda e sandálias desgastadas.

Já de cócoras na calçada, tentei entender a insistente pergunta:

– Por que você acha que sou doutora?

– Sei lá, tem cara de doutora.

Rápida e discretamente, olhei-me de cima abaixo. Camisa xadrez de mangas longas dobrada acima dos cotovelos, calça jeans preta, tênis baixo preto e uma pequena mochila preta nas costas, contendo tudo o que eu precisaria para uma viagem de quinze horas de duração, entre ida e volta à capital Maceió, passando por dois municípios do Sertão e do Agreste de Alagoas.

Ou seja – dispensadas as discussões sobre moda-trabalho – absolutamente nada que me elevasse à condição de “doutora” suposta pelo garoto.

– Você conhece alguma doutora?

– Conheço.

– Quem é ela?

– A Raquel.

– E a Raquel parece comigo?

– Parece. Tu é doutora também?

– Não sou não.

Como jornalista com aguçado espírito felino que sou, fiquei curiosa para saber mais sobre Bruno. Menino falador, contou-me que morava numa rua “seguindo ali reto” e que tinha “um bocado” de irmãs e irmãos, não soube ou não quis dizer a quantidade exata. Disse morar com a mãe, dona de casa e criadora de animais, e que o pai “morreu faz tempo”. Tive vontade de conhecer a casa, mas “ali reto” era longe o suficiente para impedir a conciliação entre a visita surpresa à família de Bruno e o trabalho que me levara a Carneiros naquele dia.

Mas o que mais chama a atenção nas falas de Bruno são seus sonhos de menino.

– Você estuda, Bruno?

– Estudo, faço terceira série.

– Você gosta de estudar?

Pensou um pouco.

– Gosto, é bom.

– E o que você gosta mais de estudar?

– Ah, eu gosto mais de Matemática.

– E, você, quer ser doutor quando crescer?

– Eu não. Quero ser policial ou vaqueiro. Mas quero mais ser vaqueiro.

– Ah, é? E o que faz um bom vaqueiro?

– Como assim?

– Você quer ser vaqueiro por quê?

– Ah, pra montar jegue e cuidar dos animais.

– E tem algum vaqueiro que você gosta mais por aqui?

– Tem, o Nego Dão.

– E a escola?

– É boa.

No tempo em que permaneci em Carneiros, Bruno ia de um lado a outro me acompanhando, ora falando, ora fazendo perguntas. Ele falava da vontade de “ser logo grande” para montar cavalos e paquerar as meninas. E contava histórias que pareciam ser frutos da imaginação, como a viagem feita pilotando uma grande motocicleta até o município vizinho de São José da Tapera. A Maceió, disse ter ido apenas uma vez, visitar uma tia “que trabalha lá”.

Mas nosso primeiro contato ficou em minha memória. Imaginei como seria o dia-a-dia escolar dele e dos amigos, quantos vaqueiros haviam no município e quantos meninos da mesma idade tinham o mesmo sonho de ser vaqueiro, deixando a Matemática, a Língua Portuguesa, as Ciências em segundo ou em nenhum plano. E saí de Carneiros com imensa admiração pelo vaqueiro Nego Dão, que ao contrário da Escola, conseguiu ser eficaz o suficiente para alcançar e conquistar os sonhos do menino Bruno.

* Bruno permitiu ser fotografado, mas preferi não exibir suas imagens aqui. Espero que minhas descrições façam jus à beleza e à inquietude características.

** Texto revisado por Larissa Lima.

;)

1 de maio de 2011 at 1:45 15 comentários


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Acássia Deliê

"Acorda Cassilda! Levanta pra comer, Cassilda! Não estou ouvindo, fala Cassilda! Ai, Cassilda, você não tem medo de me matar do coração?" Cassilda sou eu, pelas palavras da minha avó. Meu lazer preferido é chegar em casa em surdina e dar-lhe o maior susto, seguido de gargalhadas e abraços. Acássia Deliê é jornalista, formada pela Universidade Federal de Alagoas e há tempos vinha pensando em criar um blog. Cá estamos...

 

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