Archive for março, 2011
Seu Gógli
Na fila do banco, atendo ao telefonema da minha avó:
- Deliê, chegou uma carta aqui em casa pra você.
- Certo, de quem?
- Do “Seu Gógli”.
- De quem??!!
- Do “Seu Gógli”.
- Vozinha, por favor soletre o nome desse distinto senhor…
- G-O-O-G-L-E. Gógli.
De repente, todos no banco observavam a minha crise de riso.
—
Coisas que só a minha avó proporciona. Vale até um Putz!, não acham?!
Como esquecer
Os livros são sempre companheiros. A leitura da vez é “Como esquecer”, da escritora Myriam Campello. A obra inspirou o filme brasileiro homônimo, dirigido por Malu de Martino.
A seguir alguns trechos do livro:
Quando alguém diz eu te amo para sempre, tenha certeza que você só tem uma opção: acreditar, babaca. Eu acredito em amor eterno, Papai Noel, coelhinho da Páscoa e que todo sofrimento tem fim.
E essa missão de morte me humilha, obrigada que sou a dar marcha a ré e demolir com violência a construção que eu mesma levantei amorosamente, dinamitar memórias e paisagens talhadas para os séculos. Não saio para não ver uma cidade retorcida, ainda fumegando.
Estou abúlica, monomaníaca demais para ser boa companhia. Alguns [amigos] se cansam. O mundo contemporâneo mostra-se pouco à vontade ante uma dor que excede seus prazos exíguos. O sofrimento alheio dá enjôo. Pouco importa que se tenha perdido tudo. E daí? – pensam, tricando a torradinha. A tese de Hugo é a de que a reação dos outros é inveja recalcada: as pessoas se vingam de tantos anos de felicidade a que tiveram que assistir do sereno.
Tento puxar da vala comum uma autoestima sobressalente para enfrentar as marés que se quebram contra minha nau afundando.
1502 dias
Quando o Sol acorda, os pingos rolam quentes pelo rosto. É quando os cílios cerram com força, tanta força que o corpo levanta e vai para a vida. A menina reexperimenta o lado escuro da luz e novamente percebe que os espaços são insuficientes. E cai. Desta vez, os joelhos não têm mais força para ir ao chão clamar por aquele amor (ele existiu?). Vem então a lembrança daquele dia de Sol, quando uma forte chuva veio e a menina ouviu, mesmo que ninguém tenha dito: “agora é só você”. Aquela frase reduziu os sorrisos em seu rosto – dizem por aí que a menina ficou até pesada. A mesma frase parece ecoar agora, em meio a mais uma tempestade. A menina só espera pelo dia em que o Sol vai acordar e os pingos quentes não mais rolarão. Aí terá a certeza de que ela morreu. Por enquanto, ela só agoniza.



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