Pimenta da Tapera
22 de abril de 2009 at 3:54 2 comentários
Antes a vida da gente era caçar palha na serra, chegar em casa e voltar pra serra pra pegar água. Cansei de chorar naquela serra. Deus me livre sofrer metade do que eu já sofri. Saudade eu teria se acabassem com esse nosso plantio.
(Dona Josefa da Silva, presidente da Associação dos Pequenos Produtores de Baixas, remoto povoado do município alagoano de São José da Tapera)
A viagem foi no último dia 16. Saímos cedinho, era coisa de 5h e 30 da manhã, quando Givaldir, o motorista, José Feitosa, o fotojornalista, e eu, aprendiz de repórter, saímos em direção ao longínquo povoado de Baixas, em São José da Tapera. Rodamos cerca de 220 km para ver e ouvir de perto as transformações vividas pelos moradores nos últimos cinco anos, tempo em que a Ong alagoana Eco Engenho implantou a cultura da pimenta hidropônica na região. O cultivo é feito fora do solo, em canteiros suspensos, produzidos com madeira e garrafas pets, ideal para regiões onde a água é escassa.

Em meio às pimentas e seus produtores: dona Josefa da Silva, Maria José Agripino e Marcelo de Oliveira
Baixas, que já foi cruelmente castigada pela seca, hoje produz cerca de 540 quilos de pimenta por mês e é uma das referências brasileiras para representantes de nove países, que se reuniram, na semana passada, em Brasília, na II Conferência Internacional de Tecnologia Social.
O povoado fica espremido ao sul de Tapera, quase na divisa com o igualmente pobre Pão de Açúcar, e, mesmo de carro, não é fácil chegar lá. O acesso exige pelo menos vinte minutos de caminhada a pé, sobre um amontoado de pedras e sob sol escaldante. Somando-se a isso o vasto território coberto com capim seco e as casas de taipa, escapulidas entre um quilômetro e outro, é fácil concluir se tratar de um perímetro do sertão nordestino.
Além das pimentas, duas coisas, particularmente, me chamaram a atenção e me deixaram emocionada. A primeira delas foi observar a produção artesanal de vassouras feitas a partir da palha de coqueiros. Lembro como hoje dessas vassouras, que minha avó usava quando ainda morávamos no município de Campo Alegre. Acabei ganhando uma das artesãs.
Outro fato emocionante foi ver de perto o esforço da jovem Ivanilza Silva, de 18 anos, para continuar a estudar. A caminhada de vinte minutos, até onde chegam os veículos de quatro rodas, é diária, necessária para pegar o transporte até a escola estadual, em Pão de Açúcar. É lá que ela cursa o segundo ano do Ensino Médio. Todo meio-dia, debaixo de sol no pico do céu, lá vai Ivanilza sertão afora. “Meu sonho é ser advogada, quando terminar a escola quem sabe eu passe no concurso (vestibular)”.
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1.
Zé da Feira | 23 de abril de 2009 às 19:39
Foi legal trabalhar a ilustração do seu texto e como você se sensibilizava com as narrativas de cada um dos personagens da matéria. Para mim, que conheço aquela gente desde os tempos em que viviam vazios de esperança e com as barrigas cheias de fome, na mais completa miséria, foi muito emocionante ver em seus rostos sorrisos novos, agora, cheios de vida!
Valeu a jornada amiga, espero que tenhamos outras juntos.
Abração.
2.
Debora | 29 de outubro de 2011 às 10:10
Estes produtos já estão sendo exportados???? Se,sim,quais países? Parabenizo o fundador da ONG pela injeção de esperança dada nesta parte da população deste maravilhoso país que sofre tanto com o esquecimento do Governo Federal!!!! Parabéns a todos os envolvidos neste projeto e que Deus abençoe a todos.